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Protestos que nunca existiram: 490 vídeos com IA no TikTok mostram manifestações falsas para colher engajamento

Multidões que lotam ruas de Lisboa, Paris ou Londres para protestar contra “a imigração descontrolada” — tudo filmado, tudo parecendo real, e nada disso aconteceu. Entre 14 de agosto e 2 de setembro, o jornal português Público identificou mais de 490 publicações no TikTok com vídeos gerados por inteligência artificial mostrando manifestações falsas em cidades europeias. Quarenta e sete delas traziam cenários, bandeiras e áudios ligados a Portugal, publicadas por nove perfis diferentes.
As outras 443 espalhavam imagens artificiais de outras geografias, difundidas por 60 contas focadas em países como Reino Unido (16 contas), Alemanha (14), Espanha (13), França (8) e Irlanda (6). Os vídeos mais antigos ligados a Portugal surgiram em 25 de julho; o mais antigo do levantamento inteiro é de 30 de abril e mostra falsos protestos na França, com a inscrição “SOS França” — seguido do apelo: “Se você apoia a França, interaja ao máximo com este vídeo.”
A anatomia do engano
Os conteúdos são muito parecidos: ou mostram apenas as multidões, ou simulam a tela de um noticiário, com oráculo, hora e nome de canal. Em alguns, uma figura — um idoso, um repórter, uma família — fala direto para a câmera. A narração quase sempre empurra um tema: “imigração descontrolada”, “a situação actual do país”, insegurança, valores nacionalistas, apoio a partidos como a AfD (Alemanha) e o Vox (Espanha), ou exaltação de nomes como Nigel Farage, Alberto Núñez Feijóo e Jordan Bardella.
A característica principal, porém, não é o tema — é o incentivo repetitivo à interação:
“Se apoias esta manifestação, carrega na cruz vermelha no meu perfil e carrega nos botões ao lado. Se não apoias, deixa um comentário a explicar porquê.”
Um dos vídeos sobre Portugal usava linguagem emocional para fisgar: “Enquanto muitas pessoas estão distraídas com o futebol e o entretenimento, milhares de portugueses estão hoje a sair às ruas de Lisboa para protestar.” Nos comentários, há quem diga “era bom que fosse real e não IA” — e quem responda ao apelo com “eu apoio”.
A maioria dos vídeos carrega, na margem inferior, o aviso do próprio TikTok de que o conteúdo é “multimédia gerada por IA”. O rótulo não impede a interação. E interação é justamente o objetivo: quanto mais curtidas e comentários, mais o algoritmo distribui o vídeo — e mais valiosa fica a conta para quem quer monetizar depois.
Um padrão que se repete
O fenômeno não é novo nem isolado. Em janeiro, o verificador espanhol Maldita.es identificou 550 contas no TikTok que publicaram mais de 5.800 vídeos gerados com IA mostrando protestos falsos relacionados a Venezuela, Irã, México e Palestina — alguns circularam antes das eleições do Chile. Um criador desse tipo de conteúdo contou ao Maldita que o objetivo principal é aumentar seguidores para, num segundo momento, tentar ganhar dinheiro com os vídeos.
Em março, o laboratório DFRLab do Atlantic Council descobriu uma rede de contas que disseminava de forma coordenada vídeos e imagens de IA para incitar protestos contra o governo na Moldova — que acabaram não acontecendo —, com narrativas anti-UE e pró-Rússia.
O Público destaca que a difusão desse tipo de conteúdo falso se apoia em três técnicas de desinformação: linguagem emocional, conteúdo gerado por IA e polarização. O “nós vs. eles” — os que protestam contra os que estão “distraídos” — serve para acicatar ânimos, mesmo quando o leitor não sai de casa.
O que observar
Repare na engenharia: o vídeo não precisa convencer ninguém de que o protesto aconteceu — precisa fazer você interagir, concordando ou discordando. O comentário indignado também alimenta o alcance. É um golpe contra o seu viés de confirmação, e a IA é o que permite produzir “provas” em escala industrial. Quando vir uma multidão “histórica” num vídeo sem fonte jornalística real, desconfie: manifestação que só existe no TikTok continua sendo manifestação que não existe.
Fonte: Público