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Grayscale lança o primeiro ETF spot de Zcash nos EUA e ZEC dispara 66%

Capa do post: Grayscale lança o primeiro ETF spot de Zcash nos EUA e ZEC dispara 66%

A Grayscale acaba de abrir uma porta que, por anos, o mercado tratava como fechada: um fundo negociado em bolsa nos Estados Unidos com exposição direta a uma criptomoeda de privacidade. No dia 25 de agosto de 2026, a gestora converteu seu antigo Zcash Trust — criado em outubro de 2017, um dos veículos de ativo único mais antigos do país — no ZCSH, o primeiro ETF spot de Zcash listado na NYSE Arca.

Um trust de nove anos vira ETF

O ZCSH não nasceu do zero. É a reencarnação do Zcash Trust, que passou a maior parte da vida negociando no mercado de balcão (OTC) com descontos pesados em relação ao valor patrimonial — às vezes acima de 40% — porque os cotistas não conseguiam resgatar as cotas diretamente contra o ZEC subjacente.

A conversão em ETF corrige esse problema. Participantes autorizados agora podem criar e resgatar cotas contra os ativos do fundo, o que força o preço de mercado a acompanhar o valor patrimonial de forma muito mais próxima. Na segunda-feira anterior à listagem, o trust reportava mais de US$ 313 milhões em ativos; quando o ZCSH começou a operar, a Grayscale calculava os ativos do fundo em cerca de US$ 304 milhões em ZEC, sob custódia da Coinbase Custody International.

O fundo cobra uma taxa anual de administração de 2,50% — bem acima dos menos de 0,25% que já são comuns nos ETFs de Bitcoin e Ethereum. A Grayscale afirmou que toda a receita dessa taxa será revertida para o desenvolvimento e o marketing do ecossistema Zcash, um compromisso estrutural incomum para um produto de Wall Street.

ZEC dispara e volta a níveis de 2018

A alta não veio de uma vez só. O ZEC subiu a partir de cerca de US$ 510 em etapas: primeiro com a antecipação do pedido, depois com um short squeeze ligado ao fim do desconto do trust e, por fim, com a própria listagem, até tocar valores acima de US$ 850 — o maior patamar desde o início de 2018. No total, o token avançou 66% na semana da estreia.

O volume negociado em exchanges centralizadas passou de US$ 1,2 bilhão em uma única janela de 24 horas perto da listagem, várias vezes a média diária do mês anterior.

Steve Vanourny, Head of Index da Grayscale, enquadrou o lançamento como uma aposta na demanda crescente por ferramentas de privacidade, e não como um evento de curto prazo. “As AI reshapes how financial activity can be monitored, we believe demand for genuine financial privacy will only grow”, afirmou. “With ZCSH, Grayscale is building on its history of industry firsts by giving investors a way to gain exposure to one of the market’s leading privacy-focused assets.” (tradução livre)

O caminho regulatório que a Monero não teve

O caminho até o ZCSH foi mais suave do que muita gente esperava. A SEC concluiu, em janeiro de 2026, uma revisão formal do Grayscale Zcash Trust — uma investigação iniciada no fim de 2024 para avaliar se o ZEC se qualifica como valor mobiliário — e encerrou o caso sem ação punitiva. Não foi uma aprovação formal, mas abriu espaço suficiente para a listagem na NYSE Arca.

A diferença técnica também pesou. O Zcash oferece privacidade opcional: o usuário escolhe entre transações totalmente transparentes e transações blindadas (shielded), que usam provas de conhecimento zero para ocultar remetente, destinatário e valor. Já a Monero adota privacidade por padrão, sem modo transparente. Essa distinção importa para a conformidade: exchanges conseguem aplicar checagens de know-your-customer sobre os endereços transparentes do Zcash de um jeito que simplesmente não conseguem com a Monero.

O contraste no tratamento foi nítido. A Binance retirou a Monero de listagem em fevereiro de 2024, e a OKX seguiu meses depois, dentro de uma onda de exchanges cortando laços com moedas de privacidade sob pressão de combate à lavagem de dinheiro. O Zcash escapou desse destino em parte porque a Electric Coin Company e a Zcash Foundation dialogaram diretamente com reguladores, incluindo uma mesa-redonda da SEC em 2025.

Privacidade agora domina a rede

Há um detalhe que torna o ZCSH mais complexo do que um ETF comum: a rede por trás dele ficou majoritariamente privada. Em julho de 2026, transações blindadas respondiam por cerca de 90% da atividade da rede Zcash, contra menos de 20% dois anos antes. A virada é creditada ao Zodl, a carteira móvel mais popular do Zcash, que passou a operar com privacidade ativada por padrão no fim de 2025.

O pool blindado cresceu para cerca de 4,2 milhões de ZEC — perto de 30% da oferta em circulação — e continuou se expandindo mesmo em quedas de preço, sinal de que o movimento vem de uso real, não de especulação. É por isso que o desenho de custódia do ETF importa: o fundo mantém ZEC transparente para os reguladores, enquanto a rede que ele rastreia fica cada vez mais opaca para as ferramentas de análise on-chain.

O que observar

O momento diz muito sobre a direção da regulação. Pelo menos 10 países restringem ou proíbem moedas de privacidade em exchanges, mas os EUA acabaram de andar na direção oposta: dias antes da estreia do ZCSH, a SEC propôs a Regulation Crypto Assets (11 de agosto de 2026), um arcabouço voltado a emissores e intermediários, não aos ativos em si.

Para o canal, a parte mais interessante é a tese da própria Grayscale: sistemas de IA cada vez mais capazes de analisar dados públicos de blockchain estão corroendo a privacidade prática das redes transparentes. Se agentes de IA passarem a executar muito mais transações on-chain do que humanos, a privacidade matemática das provas de conhecimento zero deixa de ser um nicho e vira um diferencial competitivo. É exatamente a interseção entre IA e blockchain que a gente acompanha por aqui.

Fonte: The Cryptonomist