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Coinbase, Block e mais de 40 empresas cobram acesso de devs do Bitcoin aos modelos de IA de fronteira

Capa do post: Coinbase, Block e mais de 40 empresas cobram acesso de devs do Bitcoin aos modelos de IA de fronteira

Quem deveria ter a primeira chance de usar os modelos de inteligência artificial mais poderosos do mundo: os hackers que vasculham o código do Bitcoin atrás de falhas, ou os voluntários que tentam corrigi-las antes do ataque? Essa é a pergunta que abre uma carta aberta do Bitcoin Policy Institute (BPI), assinada por mais de 40 organizações do setor de ativos digitais.

Estão na lista Block, Coinbase, Strategy, MARA, Galaxy, BitGo, Brink, OpenSats, Chaincode Labs, Spiral, Trezor, Unchained, Btrust e Fedi — uma mistura de empresas de capital aberto, mineradoras, custodiantes e grupos de desenvolvimento sem fins lucrativos. O pedido é direto: que os laboratórios de IA de fronteira abram acesso confiável e antecipado aos seus modelos para desenvolvedores do Bitcoin e mantenedores de software de código aberto.

O que a carta pede (e o que ela não pede)

O documento não sugere liberar capacidades avançadas de cibersegurança para qualquer pessoa. A proposta é um programa controlado, com quatro pontos: acesso antecipado aos modelos de cibersegurança de fronteira, capacidade de computação suficiente para auditorias completas, ambientes seguros para revisar código privado ou sob embargo e linhas diretas de comunicação com as equipes de segurança dos laboratórios.

A justificativa é que os guardrails presentes nos sistemas públicos hoje bloqueiam pesquisa legítima de segurança. Muitos defensores de ativos digitais — incluindo desenvolvedores do Bitcoin Core — ficam de fora dos programas de acesso e acabam dependendo de alternativas open-weight menos capazes.

“The past several weeks have made the need for this abundantly clear”, escreveu o BPI na carta.

Um pesquisador já foi empurrado para o modelo chinês

O aperto já tem consequência prática. Rob Hamilton, CEO da AnchorWatch e líder do esforço voluntário de auditoria do Bitcoin Red Team, contou que começou a integrar as capacidades de Trust & Cyber da OpenAI ao seu trabalho de revisão — e viu o acesso ser restringido na manhã seguinte.

“It absolutely guts me as a patriotic American to have to do this, but I will be going back to using Chinese open source models to conduct my research to protect Bitcoin infrastructure”, disse Hamilton.

Ele completou o raciocínio apontando o paradoxo da política atual: os atacantes não esbarram nessas barreiras, só os defensores.

“Black hats will not hit these issues. The white hats will. We’ve hit a local minima in policy.”

O que a IA já faz pela defesa — e pelo ataque

A carta classifica a IA de fronteira como potencialmente uma das “most powerful defensive technologies ever developed”. O próprio Bitcoin Red Team ilustra isso: em menos de 30 horas de revisão assistida por IA, o grupo voluntário levantou 4.962 possíveis problemas em 390 projetos ligados ao Bitcoin — 720 deles inicialmente marcados como severidade alta ou crítica. No fim de semana seguinte, o total de vulnerabilidades críticas e altas confirmadas chegou a 1.288, um ritmo impossível para uma equipe humana pequena.

O outro lado da moeda é o ataque. O BPI diz ter recebido relatos independentes de campanhas coordenadas por atores sofisticados — possivelmente patrocinados por estados — usando IA avançada. Isso conversa com notícias de que o grupo norte-coreano Kimsuky montou ambientes locais de IA com Ollama, GPT4All e Msty, rodando malware e phishing sem nunca tocar um serviço comercial monitorado.

“Without dedicated access programs, defenders may lack the tools needed to keep pace with evolving threats to the infrastructure they maintain”, alerta a carta.

O contexto dos números

O pedido não chega no vácuo. Em abril de 2026, hackers levaram mais de US$ 634 milhões de plataformas cripto — o pior mês desde o ataque à Bybit, que empurrou as perdas para perto de US$ 1,4 bilhão em fevereiro de 2025, segundo dados da DefiLlama citados na carta.

O ecossistema do Bitcoin também foi atingido. Uma falha de firmware nas carteiras Coldcard enfraqueceu a aleatoriedade usada na geração das seed phrases, permitindo que atacantes restringissem as chaves possíveis e drenassem carteiras sem acesso físico. A Galaxy Research estimou 1.596 BTC em roubos confirmados, com uma onda adicional suspeita podendo levar o total a cerca de 2.055 BTC — mais de US$ 100 milhões.

Mitchell Amador, CEO da plataforma de bug bounty Immunefi, descreveu os modelos mais novos, como Claude Opus 4.8 e ChatGPT 5.5, como parte de uma “vulnerability apocalypse” para o setor. A Immunefi registrou cerca de US$ 110 milhões perdidos em hacks só em julho, com 164 incidentes até 3 de agosto.

Dinheiro não resolve sozinho

O setor até está colocando recursos na mesa. Strategy, BlackRock, Coinbase e outras seis empresas formaram o Bitcoin Security Consortium, com US$ 15 milhões ao longo de três anos para desenvolvedores e pesquisadores — com criptografia pós-quântica como prioridade inicial. A Galaxy abriu um fundo separado de US$ 5 milhões para segurança do Bitcoin.

Mas o argumento do BPI é que verba sem acesso aos modelos deixa os pesquisadores “com uma mão amarrada nas costas”. Nenhum grande laboratório de IA tinha anunciado publicamente um programa que atendesse ao pedido da coalizão até a publicação da carta.

O que observar

O ponto central aqui é de incentivos, não de tecnologia. O código aberto sustenta tanto o sistema financeiro digital quanto o tradicional, e uma única falha nessa infraestrutura pode colocar em risco as economias de muita gente. Enquanto o acesso for mais fácil para quem ataca do que para quem defende, a corrida fica torta — e a janela para corrigir antes do exploit é exatamente o que os defensores estão pedindo para encurtar.

Fonte: The Cryptonomist